Confira a entrevista de Marcello Ladeira, da Siteware, e entenda como a inteligência emocional transforma líderes e gestores

Nas últimas décadas, o mercado corporativo enxergou que apenas habilidades técnicas não são suficientes para formar bons gestores. Os grandes líderes são aqueles que conduzem suas equipes com o desenvolvimento de uma inteligência emocional que permita superar os momentos mais complicados.

Para compreender melhor sobre os líderes podem se tornar mais inteligentes emocionalmente, conversamos com Marcello Ladeira, CEO e co-fundador da Siteware, companhia responsável pelo desenvolvimento do software de indicadores de desempenho das maiores empresas do Brasil.

 

Para ouvir a 23ª edição do Digicast, basta usar o player acima. Se preferir, você pode ler a transcrição da entrevista feita por Pedro Renan, CEO da Digilandia, logo abaixo.

Olá! Bem-vindos ao 23º episódio do Digicast. Sou Pedro Renan, CEO da Digilandia e da Agência Papoca e seu host. 

Hoje, estou muito feliz. Recebo o Marcello Ladeira, do Siteware, para falar de um assunto que considero muito, muito importante, que é inteligência emocional para líderes.

Seja muito bem-vindo, Marcello!

Olá, Pedro. É um prazer estar aqui no Digicast e poder trocar experiências sobre um tema tão relevante, principalmente para momentos como este que estamos vivendo agora.

Você acha que inteligência emocional é algo subvalorizado nas empresas pelos líderes e até mesmo pelos funcionários?

Esse conceito de inteligência emocional ficou conhecido em 1995, com o lançamento do best seller do americano Daniel Goldman. Ele definiu muito bem como a capacidade sentir, entender, controlar e modificar o próprio estado emocional ou de outra pessoa.

O fato de até 1995 não existir o termo “inteligência emocional” não quer dizer que não existiam pessoas emocionalmente inteligentes naquela época, ou até mesmo que o RH das empresas não avaliassem a capacidade das pessoas de atuar em ambiente de alta pressão. De alguma forma, isso era feito.

Acredito que antes não era tão claro para as pessoas que inteligência emocional era algo que poderia ser, facilmente, desenvolvido. E a minha visão é de que, hoje em dia, todos os profissionais que querem se destacar devem se dedicar a aprimorar sua inteligência emocional.

Quando a gente olha para o perfil de empresa no Brasil, muitas delas de pequeno porte, acredito que em grande parte delas haja líderes com níveis limitados de inteligência emocional. Só que com a democratização do acesso à informação e a entrada das novas gerações no mercado de trabalho, isso pode estar mudando.

Com a geração Y e os Millenials, a forma de conversar e obter engajamento com esse profissional é bem diferente do que antigamente.

Antigamente, a gente dava uma ordem e as pessoas executavam. Hoje em dia, a gente tem que comunicar e obter resultado por meio de propósito e não de ordens.

Outro fator que pode estar contribuindo para a valorização da inteligência emocional diz respeito à migração dos modelos de gestão e liderança nas empresas. 

Saímos de um modelo antigo, baseado em comando e controle, em que imperava previsibilidade e processos padronizados, para um modelo que estimula mais autonomia, engajamento do profissional, baseado em planejamento e execução mais colaborativos. Há um ambiente mais flexível, com processos mais dinâmicos e mudanças estratégicas frequentes. 

Neste momento atual, temos mudanças estratégicas quase que semanais. Há um dinamismo gigante hoje em dia e a tendência é que isso continue por um bom tempo e, eventualmente, fique ainda mais dinâmico.

Ou seja, num modelo com mais liberdade, que vem acompanhada de mais responsabilidade, é isso que vivemos agora. Portanto, mais profissionais devem ser capazes de atuar na linha de frente e suportar com mais naturalidade a pressão desse trabalho.

Pegando o gancho de que o conceito surgiu apenas em 1995, você acha que o tema não é debatido ou tão exposto quanto deveria porque existe certo preconceito? Existe um medo de ser vulnerável?

Mesmo que esse tema não seja tratado de forma tão aberta, aquelas pessoas que não são emocionalmente tão inteligentes não conseguirão enganar as demais por muito tempo. Em algum momento, elas serão colocadas sob pressão e vão acabar estourando ou “abrindo o bico”, e isso terá reflexo no restante do time, seja por pressão ou incapacidade de lidar com uma situação difícil. Em algum momento, isso tem de ser tratado.

Acredito que o RH tenha ferramentas bastante adequadas hoje em dia até para identificar isso. Ainda não vi nenhum programa dentro das empresas que motive o aumento da inteligência emocional. Mas é possível lidar com isso e se capacitar para ser emocionalmente mais inteligente.

Aqui no Digicast, falamos muito sobre trabalho remoto. Esses dias, tive uma reunião e conversava com outra pessoa, que mencionou que outra pessoa saiu da empresa porque gostaria de trabalhar remotamente. Essa pessoa disse que não poderia ser líder de forma remota, que liderança remota não existe. E fiquei meio assim. Estamos na agência há quatro anos, nunca houve um escritório e funciona muito bem.

Há alguns assuntos que por meio de tabu não falamos sobre alguns assuntos ou temos opiniões que não condizem com a realidade. É óbvio que tudo é adaptável, mas vejo alguns tabus com temas como inteligência emocional e trabalho remoto.

E minha próxima pergunta é quais são os desafios que você encontrou ao falar de inteligência emocional e fazer disso uma realidade para usa vida pessoal e dentro da Siteware?

Hoje em dia, sou o profissional mais velho dentro da Siteware. Venho de uma época em que empreender não era cool, mas falta de opção. Quando saí da faculdade, as empresas daqui de Minas não estavam com boas vagas em aberto, e eu imaginei que poderia criar minha própria empresa. Foi essa ideia.

E minha experiência profissional anterior se limitava a estágio na época da faculdade mesmo. Em empresas que na época deveriam ser formadas por algumas das melhores mentes de minas, uma empresa da IBM. Eu deveria estar cercado de pessoas emocionalmente bem inteligentes. 

Essa primeira empresa, montei com um colega de faculdade e resolvemos seguir um modelo que hoje em dia teria o nome bonitinho de lean. Éramos só nós dois e algumas vezes um estagiário. Chegou a ter mais de uma centena de clientes no Brasil e na América Latina. Fizemos um sucesso danado na época. Estamos falando no período de início da internet, bastante tempo atrás.

Quando realmente comecei a me dedicar à Siteware em 2002, meu conhecimento de liderança se resumia à literatura que eu consumia. Ou seja, tinha uma capacidade de liderança bastante limitada. 

Sempre procurei tocar a empresa de forma mais democrática possível. Deixei de ter o pensamento lean e pensei que a empresa deveria fazer mais. Para isso, deveria haver mais gente trabalhando. Fui capaz de envolver as lideranças, para que pudéssemos conversar e discutir as principais decisões.

Confesso que até cinco ou seis anos atrás, eu tinha muito pouco de uma pessoa emocionalmente inteligente. O Marcello que existe hoje é um Marcello que começou a ser formado em 2013, 2014. 

Acho que nunca tentei falar diretamente sobre isso na Siteware. Em boa parte do tempo, convivi com liderados que eram até mais emocionalmente inteligentes do que eu. E com eles, fui capaz de aprender bastante coisa.

O maior perigo que acho nessa parte de inteligência emocional é agir no automático. Muitas vezes, temos um rampante de que as coisas têm de ser feitas do nosso jeito, e isso expõe para todo mundo que, naquele momento, você perdeu o controle da situação. E você usa a força para obter esse controle. E é péssimo ter de agir dessa forma.

Dentro da Siteware, eu diria que tenho feito grande esforço para ser emocionalmente inteligente o tempo todo. Percebo, hoje em dia, quando um dos meus liderados perde essa capacidade. Isso fica para alguns feedbacks que depois a gente acaba dando.

O primeiro conselho que posso dar para todo mundo é que é necessário aprender a identificar quando a gente não está emocionalmente inteligente. Ou seja, aquele momento em que a gente perde esse controle.

Há uma ferramenta que foi passada pelo meu coach, que é a cruz do equilíbrio. Ela permite que a gente identifique se estamos fora do nosso centro. 

Essa cruz tem um eixo X, que tem a escala passado, presente e futuro. E o eixo Y tem o ego reduzido, o eu real e o ego ampliado. Ela é um ótimo exercício para entender onde a gente está num determinado momento. Com base no seu sentimento naquele momento, você identifica quais dos quatro quadrantes está. E a cruz vem com perguntas simples que fazem com que a gente retorne para o centro. E o centro é representado pelo presente e pelo eu real.

Ou seja, saio do ego reduzido, onde estou mais deprimido, ou do ego ampliado, onde estou querendo usar o poder, e vou para o meu eu real, quem eu sou realmente.

Saio do medo de um futuro incerto e venho para o presente, e falo o que posso fazer para lidar com isso se isso realmente vier a ocorrer. 

Essa cruz é fantástica para o momento em que você percebe que está fora do seu centro. É uma ferramenta muito fácil de ser usada.

Cruz do Equilíbrio

Tem um negócio interessante também que só exercitar e voltar para o centro não é suficiente. É um começo. Mas depois de um tempo, é importante você tentar refletir sobre quais situações semelhantes que ocorreram no seu passado, quando ainda era uma criança, e que motivaram a agir como você tem feito. 

Ou seja, aquela demonstração de falta de inteligência emocional reflete algum cenário em que sua criança foi exposta. E aquela forma de agir é um reflexo que sua criança identificou que seria aquilo que daria segurança para agir em situações semelhantes. Portanto, você está repetindo coisas que ocorreram no passado. 

Isso dá um pouco mais de trabalho para fazer. A cruz é muito tranquila, mas essa parte de voltar para o passado e entender a situação dá um pouco mais de trabalho para fazer, principalmente se a gente não tem ajuda de um profissional. Mas posso garantir que é recompensador, porque é isso que faz realmente a transformação. 

Essa hora que você volta ao passado e ressignifica aquela situação, talvez você tenha de agir de forma mais natural da próxima vez. Quando você não essa maturidade toda, você tem de perceber que está perdendo o controle e deve agir para voltar para o centro, para aquilo não ser um problema mais. 

Isso é muito interessante. É legal você falar que começou a empreender em 2002 com a Siteware e considerar essa transformação somente em 2012, 2013. Olha quanto tempo houve nesse gap.

Passei por um processo semelhante. Comecei a empreender com 20 e meu processo de mudança é de seis meses, um ano para cá. E acho que estou longe do ideal ainda.

Quando você foi falando, lembrei de várias coisas. Como trabalhamos remotamente, falamos muito por áudio e temos uma comunicação assíncrona, porque há pessoas em vários lugares do mundo.

Houve várias vezes em que recebia algo e, imediatamente, já respondia. E 30 minutos depois, já ficava muito arrependido do que tinha respondido. Ou eu era muito grosseiro ou muito estressado ou muito sucinto. Mas 99% das vezes em que respondia de forma imediata, não era eu mesmo. 

Faço terapia, meditação, tento consumir literatura, mas algo que fiz foi criar um grupo no WhatsApp onde estou sozinho. Sempre mandar um áudio para as pessoas, mando nesse grupo e escuto. Às vezes, ainda tenho alguns deslizes, mas já tem ajudado bastante.

Até pegando o gancho do que falei, costumamos falar muito de erros, porque engradecem a gente e quem está nos acompanhando. Seja nesse ponto de inteligência emocional ou qualquer outro ponto, qual foi seu maior erro e aprendizado como empreendedor?

Vou destacar o aprendizado. Vivi pouco isso em casa e, talvez, isso tenha criado o Marcello que era o oposto disso. Ou seja, por não ver em casa, quando fui para o mercado de trabalho e empreender por conta própria, resolvi fazer diferente, que é a resiliência.

Meus pais me criaram para ser funcionário público. O dia que passei no concurso da Petrobras e me recusei a mudar no Rio de Janeiro, minha mãe quase teve mais um filho. Gosto de estar em mares tempestuosos.

Mas trabalhar a resiliência é a maior qualidade do empreendedor. Ter força para recomeçar e, algumas vezes, recomeçar do zero. E já fiz isso.

Considero que a resiliência, o fato de não desanimar por tombos da vida, é fator primordial. É a maior qualidade que qualquer empreendedor tem de ter. 

E a inteligência emocional vem muito para isso também, para acordar e se virar. O fato de se levantar rápido e continuar é fundamental para qualquer empreendedor e é o que mais valorizo.

A gente tem histórias muito parecidas nesse sentido. Na minha casa, é igual. Meu irmão é funcionário público. Ele é defensor, e eu era o oposto, meio que a ovelha negra. Eu trabalhava em grande empresa, mas era muito infeliz. 

Não queria ter a vida do meu irmão. Sou dinâmico, de mudanças e resolver problemas toda hora. E a vida que via do meu irmão era mais pacata, mais serena. É uma vida menos dinâmica. E não tem certo ou errado. Tem gente que gosta e gente que não gosta. Não é uma crítica.

Decidi abrir minha própria empresa, para fazer do jeito que desse. Também tive de passar por muita resiliência, quando saí do Ceará para São Paulo. Passei seis meses sem dinheiro para comer. Trabalhava de garçom no fim de semana. Morei num hostel com 20 pessoas no quarto por um ano. 

No final, vem aquele “sucesso da noite para o dia”, que demorou 10 anos para começar a conseguir ter alguma coisa. E vale a pena. A resiliência acaba se pagando.

Sem dúvida nenhuma, ser um profissional hoje melhor do que era um ano atrás, do que dois anos atrás, com evolução sempre e mente aberta, são pontos importantíssimos na nossa trajetória profissional.

De quando comecei para agora, são anos luz na frente. E sei que daqui a dois anos, falarei a mesma coisa.

E nesse ponto de inteligência emocional ou até mesmo de liderança, qual dia foi o seu mais difícil como líder?

O meu maior desafio profissional até hoje é esse que estamos vivendo neste momento (de pandemia). Mas o dia mais difícil que tive enquanto líder foi na crise de 2015. 

Tínhamos acabado de receber investimento. Eram 11 meses de ter recebido o investimento, mas ainda estávamos no cash burn. Não tínhamos atingido o break even. Estávamos queimando caixa a uma velocidade relativamente alta. Era como se estivéssemos pilotando um avião, acelerando e apontado para baixo.

A gente chegou em outubro ou novembro de 2015 e tinha três meses de caixa. A gente conseguiria chegar até fevereiro. Chamamos nossos investidores. A gente não conseguiria reverter a situação em um curto espaço de tempo e teve de tomar a triste decisão de reduzir 30% do nosso time, o que dava um fôlego de seis, sete meses para a frente.

Acabamos tendo de desligar muita gente boa, que levamos muito tempo para formar. O critério de escolha dessas pessoas não foi a capacidade técnica, porque todos ali entregavam muito bem. 

Tivemos de decidir aqueles que eram menos amigos. Ou seja, acabaram sendo demitidos os mais introvertidos, que tinham chegado na empresa há menos tempo ou não se engajavam tanto nas brincadeiras da empresa. Foi o critério de decisão, porque o time inteiro era de alta performance.

Esse foi o dia mais difícil. Desligamos 12 pessoas, 30% da empresa. Foi questão de sobrevivência. Foi bastante difícil.

Com relação ao momento atual que falei que é o maior desafio que já passei, acho que o fato de estar mais preparado, mais emocionalmente inteligente, tem permitido que eu tenha ótimas noites de sono, que eu não tenha perdido a paciência e a calma com situações em que fui confrontado. E, eventualmente, fui confrontado em situações tão complexas quanto as de 2015. E até mais complexas ainda.

Hoje em dia, sou mais preparado que o Marcello de 2015.

Temos muito em comum. Ouvindo você falar, o meu dia mais difícil foi como o seu. A gente estava com investimento, queimando o caixa, com três meses de vida, e tivemos de demitir a empresa inteira. Por coincidência, o meu sócio estava viajando na época e tive de fazer isso sozinho. Num dia, demiti todas as pessoas da empresa. Chamei um a um e fui falando. Foi um dos piores dias da minha vida. Tínhamos um clima tão forte, que era como se fosse família.

Eram pessoas que tinham acabado de casar, pessoas que compraram apartamento, carro, gente que teria filho. São realidades diferentes, e você, de uma forma ou de outra, está “destruindo ou despedaçando” todos aqueles sonhos. 

Foi muito tenso, mas um grande aprendizado para todas as pessoas envolvidas. Conseguimos ajudar a realocar grande parte das pessoas para lugares melhores, pelo menos de cargo e financeiramente falando. É um dia que marca e fica na memória, porque é mais sobre elas do que sobre a gente.

Para passarmos a fase mais down, vamos falar de coisa boa também. Qual foi seu maior acerto como líder ou empreendedor?

Quando fundei a Siteware, vim de uma empresa que tinha sucesso, mas eu tinha desavenças com meu sócio. Então quando fundei a Siteware, o objetivo era fazer carreira solo. Meu sócio era meu irmão ou meu pai e tinha aquele mínimo exigido pela lei para ter uma empresa limitada.

Até 2008, rodei assim. E meu maior acerto foi em 2008, percebendo que a empresa já tinha porte bom, pessoas boas, bons líderes, olhei para minha casa e pensei como minha esposa tocaria minha empresa se eu falecesse. Meus meninos como teriam futuro se eu falecesse, porque eram recém nascidos. Um tinha dois anos e a outra estava nascendo. 

Percebi que tinha de alguma forma tornar a Siteware menos dependente de mim. E o maior acerto foi naquele momento, ao identificar naquelas lideranças as que eu poderia convidar para serem sócias da Siteware. 

Percebi que, naquele momento, a empresa não era só minha. Tinha muita gente que dependia dela e era uma forma de tornar a empresa mais perene caso eu viesse a faltar. 

Acho que esse foi meu maior acerto. Em 2014, já estávamos em outro patamar, sete ou oito maiores, e percebi que tínhamos de dar um novo passo, trazendo mais gente boa para dentro da empresa. Foi quando me aproximei do fundo do Criatec 2 e apresentamos o projeto daquilo que é a Siteware hoje. 

Em 2015, pudemos mudar por completo o modelo de negócios da Siteware. Saímos de uma empresa de soluções on premise para uma empresa, efetivamente, Saas. 

Foi um grande passo deixar de achar que sou único dono da empresa, primeiro trazendo pessoas muito boas para ajudar a tocar o barco junto comigo e depois trazendo o smart money para abrir novos horizontes. Foram os dois grandes acertos. Sempre diminuindo minha participação, mas pensando no longo prazo, numa empresa muito maior.

A sua pergunta não aborda o maior erro, mas seria legal comentar porque é bastante comum para muitos empreendedores: sobra de dinheiro.

Em 2008, quando trouxe meus primeiros sócios para dentro da Siteware, tivemos um ano muito bom e sobrou dinheiro demais. Sobrou tanto dinheiro que não tivemos tanta atenção aos custos e contratamos muita gente. Codificamos milhares de linhas de código e chegamos em 2009 com um time muito maior, mas, ao mesmo tempo, gerando pouco valor para o cliente.

Você ter dinheiro de sobra faz parte do meu maior erro. Acho que o empreendedor tem de andar justo.

Concordo muito. No episódio 8, com o Carmelo, que foi meu sócio na Logovia, falamos sobre lições básicas de negócio. Uma das coisas que ele falou foi que o empreendedor tem ser “da barriga no balcão”, de anotar os custos no lápis, de conhecer os clientes e os usuários, ter uma gestão efetiva.

Brinquei, dentro de um contexto, que é mais difícil ter dinheiro do que não ter. Quando você não tem, tem de se virar e montar as soluções mais criativas, fazer mais com menos. 

Quando o dinheiro está sobrando, a gente não se importa tanto com isso, vamos testar tudo que sempre quisemos, contratamos pessoas para fazer nosso trabalho operacional e, às vezes, nos perdemos. É muito importante com dinheiro manter essa estrutura enxuta.

No livro Sonho Grande, do Paulo Lemann, eles falam como entravam nas empresas e enxugavam gastos desnecessários. Acho que é um excelente aprendizado esse que você indicou.

Eles têm aquela frase que custo é como unha. Você tem de viver cortando sempre. 

Esse ano foi extremamente brochante para a gente. Tínhamos um time grande, dinheiro sobrando, desenvolvendo muitas coisas e gerando quase nada de valor para o cliente.

Voltando um pouco para o tópico principal, quais dicas práticas que você daria para quem quer buscar ter melhor inteligência emocional?

Uma coisa bem interessante da inteligência emocional é que passível de ser desenvolvida e de forma relativamente simples. Então, você dedicar tempo para o autoconhecimento por meio de um bom terapeuta, um coach ou por leitura de livros relacionados a esse assunto ajuda bastante.

Outro ponto é o fato de meditar. A meditação é uma ferramenta extremamente poderosa para estar realmente presente, estar com o seu eu real. Tornar a meditação uma prática frequente é bastante positivo para você desenvolver sua inteligência emocional.

E aqueles que gostam de fazer esporte, acho que também é um momento fantástico para relaxar, desestressar e estar menos tenso para os momentos em que a vida exige uma reação rápida. Você vai menos no automático e vai mais na consciência por meio de seu desenvolvimento.

Sugiro o autoconhecimento, a meditação e a prática esportiva como dicas para desenvolver uma boa inteligência emocional.

No episódio 3, falamos com a Amanda, do Trello, sobre dicas de trabalho remoto, mas, no final, ela abordou como é a experiência dela com montanhismo e como ajuda tanto na vida pessoal quanto profissional. Ela lançou um documentário sobre uma expedição que ela fez. É muito legal ver a relação do esporte com paz de espírito.

Sobre meditação, há vários apps e recomendo testar. O que mais gostei é Meditopia, que tem meditações guiadas por temas. Eles não pagam pelo jabá, mas é que realmente gostei.

Apenas complementando, a gente usa bastante o Headspace. Inclusive nas meditações em grupo que temos feito na Siteware, estamos usando o Headspace. E outro que tenho experimentado recentemente é o Synctuition.

Pessoal, testem. Não há certo e errado, é o que funcionar para você. É muito legal essa iniciativa. Como funciona a meditação coletiva que vocês têm feito?

A Siteware não é uma empresa home office. Estruturamos a operação em home office no ano passado, porque estávamos com quatro unidades, Belo Horizonte, Lisboa, Campina Grande e Campinas. E imaginamos que já que temos de fazer os times dessas quatro localidades conversar e ter boa interação, por que não instituímos o home office?

Assim, instituímos o home office e capacitamos todos com as melhores ferramentas. Trocamos os poucos desktops por notebooks e oferecemos fones. E falamos que todos poderiam trabalhar de casa se quisessem. Acontece que temos um clima tão bom dentro da empresa que acho que isso foi pouco estimulado e praticado. Às vezes, quando alguém tinha de levar o filho no médico acabava adotando, mas era muito pontual. 

No dia 13 de março, decidimos que ninguém apareceria para trabalhar na empresa, todo mundo teria de trabalhar de casa. Foi muito tranquilo. A produtividade foi mantida. Algumas pessoas falam que está até melhor, mas, no geral, ela se manteve. Mas uma coisa decorrente do isolamento é o fato de se sentir isolado. E o ser humano não é isolado por natureza, é de sociedade.

Uma coisa que percebemos que ajudaria seria estimular as pessoas a fazer meditação. E aí elegemos nosso líder de meditação, que é o Paulo. Ele criou uma sala no Google Hangouts. Todo dia, às 13h, ele inicia a meditação usando o Headspace e guiando todo mundo durante o processo. De 13h às 13h20, todo mundo que tem interesse se conecta nessa sala e faz a meditação guiada com o apoio do Headspace e do Paulo, que é um dos nossos profissionais em Campinas.

Muito legal. E indo para a fase final, que é mais de dicas. Quais livros que você indicaria?

Trouxe uma lista de livros, porque o que eu ia indicar, muita gente já indicou. Talvez pelo momento, O Lado Difícil das Situações Difíceis, do Ben Horowitz, tem sido citado em todos os podcasts. Esse livro aborda as situações mais complexas que os empreendedores são submetidos quando desejam criar ou fazer um negócio crescer.

Resolvi mencionar ele apesar de ver que outras pessoas já mencionaram, porque uma coisa muito interessante do livro é que ele debate as diferenças entre o CEO para tempos de guerra e o CEO para tempos de paz. E poucos CEOs são capazes de serem muito bons em ambos os tempos.

Antes dessa crise que estamos atravessando, a Siteware vivia momento de paz, com crescimento constante ano após ano. Estava feliz por construir um negócio que alcançava sucesso. Mas, quando efetivamente entramos em lockdown e começamos a entender o impacto da crise, mudei para o modo de guerra. 

Eu, o profissional Marcello, descobri que neste momento que mais consigo ajudar a Siteware. Percebi o tanto que sentia falta dessa adrenalina de ter de pensar fora da caixa, buscar coisas novas, dar mais energia para o negócio. 

Trouxe esse livro para cá para ilustrar esse momento. Eu me sinto mais um CEO para tempos de guerra. Em tempos de paz, não consigo ser o melhor profissional que consigo ser.

O lado difícil das situações difíceis

Vou sugerir outros três livros que contribuíram de forma significativa para expandir minha capacidade como empreendedor. Um que li quando fundei a Siteware foi O Último Lugar da Terra.

Esse livro foi escrito por um historiador chamado Roland Huntford e descreve duas expedições simultâneas no início do século passado, uma feita por um norueguês e outra por um oficial da marinha britânica. As expedições buscavam chegar ao lugar mais remoto da Terra, em que ninguém tinha ido, que era o Pólo Sul. 

O norueguês Amundsen, com menos homens e recursos, mas com muito planejamento, foi capaz de chegar ao Pólo Sul um mês antes e sem perder nenhum dos homens que estavam na expedição. Já o britânico, que fazia parte da marinha, que tinha bastante recurso, chegou um mês depois e acabou morrendo na jornada de retorno. Ele não foi capaz de gerir os recursos.

Os aprendizados que tirei desse livro naquela ocasião é o valor de ter um bom plano, mas também a vitória da humildade sobre o orgulho. Esse livro é muito legal para isso.

O último Lugar da Terra

Outro livro que li há alguns anos e é muito legal é o Organizações Exponenciais, que faz ampla análise do que há comum em todas as empresas que tiveram crescimento exponencial, de forma que o leitor possa buscar repetir isso no seu próprio negócio. Esse livro quem me deu foi meu filho de aniversário.

Livro Organizações Exponenciais

E o livro que mais remete ao que estamos discutindo aqui é As 21 Irrefutáveis Leis da Liderança, do John Maxwell, que descreve 21 pontos essenciais para o líder. E cada um deles é enriquecido por uma série de exemplos. E também é interessante que o livro traz um questionário em que podemos nos autoavaliar e ver em que parte da jornada de um ótimo líder estamos.

As 21 irrefutáveis leis da liderança

São os três livros que eu daria de indicação.

Excelentes dicas. Muito humilde essa parte em que você admite que consegue ser mais útil para o negócio neste momento. 

E dicas de filmes ou séries, há alguns?

Não sei se será uma dica, porque já são mais antigos e, por isso mesmo, bem conhecidos. O que trouxe aqui é o fato de serem bem antagônicos.

Uma série que gosto muito e estimulei meu filho a assistir é Breaking Bad, que mostra o poder e a força que todo ser humano tem de se transformar. A grande lição ali é isso.

O ideal seria que a transformação ocorresse por um evento não tão traumático como o do protagonista, que é o Walter White que descobre que tem câncer e pouco tempo de vida.

Essa série mostra que temos uma energia e uma capacidade interna gigantesca. E temos de saber usá-la. Infelizmente, ele usou para o mal.


E o filme que é bem antagônico a Breaking Bad é Forrest Gump. O Forrest, apesar de todas as suas limitações, obtém sucesso das formas mais inusitadas possíveis e sem lutar por ele. 

Ele está sempre no local e na hora certa e, às vezes, sendo protagonista dos principais acontecimentos americanos nas décadas de 1960, 70 e 80. 

Trouxe mais por antagonismo dos dois. Um onde as coisas acontecem mais por acidente e outro onde as coisas se transformam. Sou mais Walter White no sentido de fazer as coisas se transformarem e não esperar que elas aconteçam.


São séries fantásticas e, se alguém no mundo ainda não assistiu, recomendo que assistam.

Forrest Gump é genial. E Breaking Bad está no meu top 3 de melhores séries de todos os tempos. 

Uma coisa legal do Breaking Bad é esse gancho do poder de mudança, mas o que também acho interessante é que, a partir dessa mudança, é que outras pessoas no mesmo ambiente também passam por uma mudança. A esposa dele sofre uma degradação ao longo da série. É muito interessante ver esse jogo social.

É a mesma mudança que você, quando procura se autoconhecer, seja por terapia ou outros canais, leva para a sua casa e seu espaço de trabalho. Sua transformação acaba contagiando de forma positiva os demais integrantes daquele espaço. É a mesma coisa.

E, por último, há algum meio em que você consome conteúdo, seja um blog, podcast ou outro canal?

Há alguns. Nunca me engajei no Twitter. Não uso nenhuma rede social, além do LinkedIn. Como blog, costumo seguir dois, que é o Silicon Valley Product Group, que fala bastante sobre desenvolvimento de produtos e tecnologia. O link dele é svpg.com

E outro que gosto bastante é do Thomas Tunguz, que faz parte da Redpoint. É o tomtunguz.com. É onde costumo me alimentar bastante sobre desenvolvimento de tecnologia, desenvolvimento de softwares.

E a respeito de outras formas de adquirir conhecimento, tenho aproveitado bastante o tempo de fazer alguma atividade física, como pedalar, para escutar os podcasts. E sempre com algum conteúdo relacionado a empreendedorismo ou tecnologia. 

Fiquei conhecendo o Digicast recentemente e o conteúdo tem sido excelente. Parabéns por ele. E outros que escuto semanalmente são Café com o Investidor, o Master of Scale, Astella Playbook e Like a Boss. Alguns deles já têm várias temporadas. Várias horas de academia podem ser acompanhados por esse conteúdo.

Se olhar para nosso tópico hoje, que é falar de inteligência emocional, outro podcast que costumo escutar bastante é Insights and Perspectives, criado pelo Joseph Rodrigues, um canadense. E ele sempre coloca o ponto de vista dele a respeito de livros com pegada para o autoconhecimento. E isso é fantástico para o momento em que estamos.

É muito interessante. Já são mais de 130 episódios, cada um focando num livro diferente. É bem enriquecedor para quem quer se desenvolver nesse tópico de inteligência emocional.

Excelentes podcasts e sites. A última pergunta não é bem uma pergunta, mas um momento jabá, para você falar da Siteware e o que quiser. Lembrando que a Siteware está no Clube de Descontos. O espaço é todo seu.

Basicamente, o que a Siteware faz é traduzir o plano estratégico de curto e médio prazo das empresas para objetivos e metas distribuídos para todos os colaboradores. Com isso, todos os envolvidos da empresa têm ciência de onde querem chegar e como podem contribuir para essa jornada.

Se ao longo desse caminho, ocorrerem desvios, como metas não atingidas ou projetos que ficam atrasados ou mesmo mudanças de conjuntura, o sistema entra com metodologia Lean que vai capacitar as pessoas a analisar e tratar esses problemas.

O mais interessante é que como nos conectamos com os demais sistemas usados dentro das empresas, acabamos transformando um repositório das principais informações produzidas nos diversos processos dentro de uma organização. 

Coletamos dados do ERP, do CRM e etc e levamos para dentro de uma única plataforma. Isso é o produto que a Siteware faz.

Além disso, estamos presentes nas principais redes sociais. Basta buscar pela palavra Siteware, e temos conteúdos produzidos para cada uma das redes. 

No LinkedIn, temos muitas dicas de gestão e anúncios de vagas disponíveis. No Pinterest, sempre temos belos infográficos. Muitas vezes, recebo infográficos que alguém compartilhou e chegou para mim. 

No Instagram, buscamos mostrar o backstage, as comemorações que temos na Siteware. E no YouTube, temos postado webinars de gestão e conteúdos com propósito de ensinar a gerir o negócio.

Sugerimos que todos que têm interesse em gestão, sigam a gente nessas redes, pois temos um pessoal aficionado em produzir os melhores conteúdos sobre gestão no Brasil.

Também estamos trabalhando para produzir nosso podcast e o foco será debater temas relacionados à gestão de empresas.

Confira o Clube de Descontos da Digilandia e tenha acesso a uma oportunidade para utilizar os serviços da Siteware:

Clube de Desconto Digilandia

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