Confira a entrevista com Débora Brauhardt, da B.done, e entenda como a flexibilidade cognitiva impacta no seu crescimento profissional

Em meio às diversas mudanças no mundo corporativo, é comum que sejamos desafiados constantemente a aprender novas habilidades. Atualmente, os profissionais que julgam já conhecer tudo sobre suas respectivas áreas de atuação podem ficar defasados ao encarar as novidades apresentadas pela transformação digital.

Para abordar a importância do aprendizado constante, conversamos com Débora Brauhardt, da B.Done. Ela aborda como a flexibilidade cognitiva impacta no crescimento profissional.

 

Para ouvir a 25ª edição do Digicast, basta usar o player acima. Se preferir, você pode ler a transcrição da entrevista feita por Pedro Renan, CEO da Digilandia, logo abaixo.

Olá! Bem-vindos ao 25º episódio do Digicast. Sou Pedro Renan, CEO da Digilandia e da Agência Papoca e seu host. 

Hoje, recebo a Débora Brauhardt, da B.done, para falar sobre flexibilidade cognitiva como competência profissional.

Seja muito bem-vinda, Débora!

Muito obrigada, Pedro. É um prazer estar aqui. Será muito legal bater um papo sobre esse tema que estudo há muito tempo e gosto muito do assunto. Será um prazer estar aqui.

Para começar, como é um nome bonito e algumas pessoas podem não entender o que significa, gostaria de pedir para você explicar e desmistificar o que seria flexibilidade cognitiva e como ela entra como uma competência profissional.

A flexibilidade cognitiva é ser capaz de formar novas conexões e novas formas de pensar e resolver problemas, tendê-los e ver como podemos chegar a essas novas soluções.

Se formos fazer uma breve análise, estamos falando de 2020. Há 10 anos, boa parte das profissões de hoje não existiam. Se formos falar de desenvolvedor web, blogger, influencer, arquiteto de Big Data, são diversas profissões que surgiram nesses últimos 10 anos. E se formos olhar para 10 anos para a frente, há estimativas de que até 85% das profissões que vamos ter ainda não existem.

A flexibilidade cognitiva é, justamente, a nossa capacidade de aprender e desaprender e olhar para esses novos caminhos numa maneira de se adaptar profissionalmente e adaptar nosso conhecimentos para esses desafios profissionais.

Inclusive, escrevo sobre isso. Estava fazendo uma reflexão: tenho um tio que era o modelo de sucesso na família há muitos anos. Ele trabalhou 35 anos numa mesma empresa, era contador, sempre fez o mesmo trabalho. E ele era, de fato, o modelo de sucesso da família. Ele começou a ser assistente de contador até se tornar diretor e sempre trabalhou na mesma área. Sustentou a família, pagou escola para os filhos, comprou casa e tira férias todo ano.

Mas, aquele modelo de sucesso de que só precisaria ser um bom contador por 35 anos, definitivamente, não funciona nas nossas vidas.

Portanto, a flexibilidade cognitiva vem no sentido de não se fechar dentro das nossas áreas de estudo e, sim, estarmos abertos para os caminhos que o futuro vai nos proporcionar.

Necessariamente, precisamos nos adaptar a eles se quisermos continuar sendo competitivos profissionalmente.

Maravilhosa a explicação. Você falou e eu estava aqui pensando como essa parte sobre o seu tio aconteceu comigo. E faz pouco tempo. Há 10 anos, estava começando a empreender. Meu irmão é 5 anos mais velho que eu, e meu irmão era o modelo de sucesso da família. Ele é concursado, defensor público, formou em direito.

Já eu larguei a faculdade no sexto semestre. Era presidente da empresa júnior, monitor, escrevia para revista acadêmica e larguei tudo para empreender na internet. Passei dois anos sem tirar salário. E acho que a cada seis meses, minha mãe e meu irmão perguntavam quando eu voltaria para a faculdade. Quando eu arrumaria um emprego de verdade. E faz uns dois anos que não escuto mais isso. Ou eles desistiram ou entenderam que mudou. 

Não que a faculdade não seja importante. Não estou estimulando ninguém a largar, mas, para a vida que escolhi para mim, não faz parte dos meus planos.

Já convivi com muitas pessoas que, em determinado momento da vida, achavam que sabiam de tudo e não existia mais nada a aprender sobre determinado tópico. E, depois de um tempo, percebi nessas pessoas o quanto essa era uma crença limitante.

Queria entender o que você acha disso. Existe, de fato, uma maneira de explorar como aprender a aprender e estar em constante evolução em várias áreas da vida?

Essa situação não só é uma crença limitante, como, muitas vezes, está associada a nossa arrogância e nosso ego. Acho que há dois pontos aqui, e um deles é achar que, de fato, não dá mais para ir para a frente, porque já aprendi o que precisava. Mas, ainda nessa vertente, assumir que já sei tudo sobre um determinado assunto é uma arrogância. 

E preciso confessar que também não estou imune dessa arrogância e desse ego batendo na porta e impedindo que a gente vá mais além.

Quando você se propõe a aprender mais sobre um assunto, é um exercício constante que você precisa fazer para fugir desse ego e dessa arrogância.

Gosto muito de contar exemplos. Pensando nessa pergunta, lembrei de um cliente que tive há muitos anos, quando ainda era consultora de RD Station

Eu era especialista em inbound marketing, teoricamente, e ensina os clientes a fazer inbound. Lembro que ele tinha de fazer um e-book. Ele me apareceu com um e-book horroroso. Sabe um negócio feio? Era a combinação do verde limão com o rosa fúcsia. 

Nosso objetivo com aquele e-book era gerar leads. O que aconteceu com esse e-book? Foi um dos leads que mais gerou leads durante a minha consultoria. E eu estava embasbacada com aquele resultado. E o que me dei conta foi que, independentemente de o material não estar no meu gosto pessoal, ele falava exatamente com o público-alvo que ele se propunha a captar. E isso funcionou muito.

Esse é só um exemplo de como a vida me dá tapas na cara de que não sei tudo e que não adianta vir com minha prepotência.

Acho que esse é um dos principais erros que vejo as pessoas cometendo e se limitando no processo de “isso não é para mim ou já sei o que precisava aqui”.

Esse processo de constante aprendizado vem tanto no processo de desconstruir para o que quero aprender. 

E outro processo é de como uso meu tempo. Particularmente, sou fã do ócio criativo. Embora a gente fale muito de produtividade, ter que aprender e ler e ocupar nosso tempo. Não sou uma pessoa que gosta da ideia de que você tem de ser produtivo o tempo inteiro. Isso é cansativo, mas, ao mesmo tempo, gosto da ideia de que se temos algum tempo livre na nossa vida, como podemos usar para aprender. Seja para aprender um novo idioma, uma habilidade. 

Não gosto de games, em geral, apesar de achar que é uma ótima ferramenta para aprender flexibilidade cognitiva e tomada de decisão. Mas gosto muito de jogos de Trivia. 

Uma coisa que gostamos muito de fazer aqui em casa é pegar a estrada, ouvir um podcast de trivia e tentar responder as perguntas para exercitar o cérebro. Obviamente, todos gostam de descansar, maratonar uma série, mas, quando a gente vive só para trabalhar, e depois quer descansar quando está muito cansado, talvez a gente não aproveite nosso tempo da melhor maneira.

Olhar para esses conteúdos que a gente gostaria de aprender com um pouco mais de frequência. Ter um hábito de leitura em temas que não são exatamente da nossa área. Então, assinar newsletters. E buscar fontes de conteúdo que gosto, seja podcasts, filmes e tudo mais, informações que possam me tirar daquele óbvio e me colocar em situações de desconforto.

Uma coisa que, para mim, faz muita diferença em flexibilidade cognitiva. Quando falo de grupos de amigos, você já parou para pensar que você vai para o trabalho, encontra as mesmas pessoas e, de repente, tudo o que você tem para falar é a respeito da empresa, do trabalho e do relacionamento, e você não extrapolou aquele mundo que está vivendo?

Acho que a flexibilidade cognitiva tem muito a ver com extrapolar esse ambiente que você está vivendo e buscar conexões ricas, conectar com pessoas que também possam trazer mais informações relevantes para a sua vida.

Foi muito bom o complemento que você deu sobre ego e vaidade, que é normal. Às vezes, é saudável ter certa autoconfiança, mas há momentos em que extrapola. Acredito muito que posso aprender com qualquer pessoa. Todo mundo tem algo a ensinar, porque todo mundo tem uma vivência diferente da sua. Então se está com cabeça aberta, você estará disposto a aprender qualquer coisa que seja.

Quando você entra num processo de culpa, em que se sente a pior pessoa porque julgou alguém, você entra numa carga emocional que só atrapalha o seu processo de aprendizagem.

Tinha um sócio que falava que trabalhamos com duas energias: a energia produtiva e a energia emocional. E elas funcionam como dois balões conectados um com o outro.

Quando inflo o meu balão da energia emocional, preciso diminuir a minha energia produtiva. Quando diminuo o balão emocional, consigo olhar para o meu lado produtivo, que é onde conseguimos sair do lugar.

Trouxe esse ponto do ego e da arrogância, porque isso faz parte do ser humano. Claro que não é para apontar o dedo para todo mundo.

E tem outro ponto em que temos de reconhecer que somos bons. Ser autoconfiante não é ser arrogante. São coisas diferentes. Então ter esse equilíbrio, saber que você pisará na bola, mas que, de forma alguma, você pode inflar o seu balão emocional com isso, porque você precisa muito mais do seu balão produtivo.

Dentro deste tema, quais são os maiores desafios que você encontrou na sua experiência ou viu em outras pessoas quando falamos de aprendizado, de mudança, de desconstrução e, de fato, de aprender a aprender.

Uma das coisas que vejo com maior frequência é a resistência à mudança. Até li uma frase ontem que fala mudar não dói, o que dói é resistir à mudança. E essa frase fez muito sentido para mim.

Quando precisa mudar e não foi uma mudança que você planejou, foi a vida que trouxe, você resiste a mudar e se adaptar. E isso é doloroso.

Cada vez que encontro pessoas que estão num processo em que não estão conseguindo se adaptar, crescer na empresa, geralmente, o que vejo por trás do processo é uma resistência à mudança muito grande.

Passo muito mais tempo me martirizando dentro desse processo em vez de olhar para o problema e entender como posso me adaptar, mesmo que isso implique em pivotar a sua carreira.

Somado ao que já tinha falado antes, a resistência à mudança é, sem dúvida, um dos grande desafios.

Algumas pessoas acharão que é besteira, mas sou uma pessoa que, todos os dias, quando acordo, agradeço pelo que tenho. E uma das das coisas que agradeço diariamente é pelos desafios que a vida me impõe. 

Pelo meu estilo psicológico e pela minha história de vida, normalmente, tendo a aprender muito mais com os desafios, com as mudanças do que com os tempos normais. É como se eu fosse uma pessoa mais de guerra do que de paz. Quando está na mudança, consigo render mais. Mas a mudança é realmente muito difícil. O primeiro ponto é aceitar que existe a mudança.

Estou até lendo um livro do Reid Hoffman, fundador do LinkedIn, que tem podcast do Masters of Scale, campeão de indicações por aqui, e ele fala nesse livro sobre como criar organizações exponenciais, que saem de um funcionário a milhares. 

E uma das coisas que ele fala é que toda hora a empresa está mudando, seja de direção, seja de diretor, tamanhos ou estratégia. As mudanças vão acontecer, e se você não aceita, a tendência é que você tenha mais dificuldade. E, obviamente, não é algo tão simples.

Acho que um claro exemplo é este momento, o que está acontecendo agora. Foi um dos maiores tapas na cara que recebemos nas nossas vidas de como as coisas mudam e não perguntam para a gente se queremos mudar ou não.

Numa das primeiras conversas que tivemos, falávamos sobre o home office. E lembro que as empresas falavam que um dia gostariam de implantar. A própria transformação digital parecia que entraria um dia na empresa e participaria da reunião às 9h. E havia expectativa de que um dia isso aconteceria.

Veio o coronavírus e vocês têm de ficar em casa. Tem de ir para a internet, porque não tem como as pessoas irem para a sua loja na rua. 

A mudança vem e não pergunta qual sua opinião sobre isso. Ou você se adapta e aceita ou você é engolido por isso. Olhar com uma visão de que você precisa se adaptar é uma forma de sofrer menos com o processo de mudança.

Estamos em ambientes que costumam mudar. Há outras pessoas que vivem de maneira completamente distinta que, talvez, tenham menos mudanças na vida e serão mais felizes assim. Se você é uma pessoa inserida dentro de uma sociedade com constante mudança, você tem de abraçar isso. 

O importante é ser feliz no fim do dia.

Exatamente. Aqui, costumamos falar sobre as coisas difíceis, para trazer a vida real. Falamos de ego, vaidade e arrogância, mas há algum erro específico que você cometeu que lembre na questão de evoluir constantemente?

Erro é o que acho que não falta na trajetória. Vamos nos adaptando e crescendo. 

Tenho alguns pontos. Lidar com o ego foi um dos pontos. Minha carreira começou há 12 anos. Depois de um tempo, eu estava crescendo, virando referência na região, dava várias palestras, as pessoas me conheciam, e eu estava achando que era a musa do empreendedorismo.

Quando saí dessa empresa, saí para empreender. Lembro que falhei miseravelmente. Trabalhei um ano na empresa e não consegui trazer um cliente para a empresa. Foi um baque terrível.

Mas, além disso, passei por outras situações em que achava que tinha tempo suficiente, com falta de consistência no meu processo de aprendizado. Para mim, um exemplo claro foi minha relação com o aprendizado de outros idiomas.

Embora tenha gostado de aprender um pouquinho sobre cada idioma, até meus 25 anos, não falava nenhum idioma, apenas português. E sempre queria muito falar inglês, começava a fazer um curso e parava. E tinha vergonha de falar inglês porque não falava certo.

Hoje, moro na Austrália, então não tenho a opção se vou precisar do inglês um dia. Não consigo ir ao médico sem falar inglês. Portanto, achar que ainda dá tempo, que talvez eu vá me adaptar, mas pode tornar seu aprendizado mais dolorido.

Você está com um negócio seu, que é a B.done, mas já trabalhou em várias outras empresas, como a Resultados Digitais. E qual foi seu dia mais difícil seja como funcionária ou como empreendedora?

Tive alguns momentos assim. Uma das que mais me marcou foi o fato de perder uma oportunidade de promoção porque não dominava o inglês 100%. Isso foi bem frustrante. Eu estava me preparando para esse cargo há algum tempo. E quando surgiu, minha gestão disse que precisava de um perfil um pouco diferente e que precisava falar inglês. Eu já sabia que precisaria disso há algum momento.

Houve alguns momentos de lidar com frustração por não ter batido meta. Logo que assumi a coordenação, assumi porque batia muito a minha meta pessoal. E quando precisei fazer isso em relação a time, vi que não estava trabalhando em processo, mas em querer me replicar dentro do time. Foi quando vi que havia arrogância no processo.

Poderia ser outros exemplos, mas esses dois foram mais significantes, com certeza. 

Esse do inglês, tenho parecido. Nunca estudei inglês oficialmente. Aprendi mais sozinho, jogando videogame, vendo série e filme do que no próprio curso. Eu falava mais ou menos e segui a vida. 

E na minha primeira empresa, recebemos um investimento, saímos de Fortaleza e viemos para São Paulo. Nosso investidor era alemão, falava português, mas queria nos ajudar a ter outros investidores internacionais. Assim que chegamos a São Paulo, houve uma reunião e ele quis nos aprender para outros fundos. Não sabíamos falar inglês e ele nos deu três meses para aprender.

Saímos da reunião e ainda não tínhamos salário, passando perrengue em São Paulo, mas contratamos um professor particular e passamos um ano, todos os dias, tendo aulas de inglês. Mas depois de três meses, já conseguíamos fazer reuniões e apresentar.

Falamos de dificuldades e erros, vamos agora para a parte boa. Qual foi seu maior acerto?

Um dos meus maiores acertos vem no sentido de que sempre consegui abraçar as oportunidades que recebi. Cada vez que um gestor ou um colega, dentro da própria empresa, questionava se poderia fazer algo, eu me perguntei “por que não”?

E, sem dúvida, a baixa resistência à mudança. Lembro que nas minhas experiências profissionais todas, às vezes, fui criticada por outros colegas por ser uma pessoa sem empatia ou positiva até demais. Quando precisava ter uma mudança muito brusca e todo mundo se desesperava e chorava, a minha tendência foi sempre seguir em frente e focar na solução.

Isso sempre me ajudou a crescer, a mudar de posições. Sou bem feliz com a carreira que venho construindo, justamente porque conheci muita gente, tive muita oportunidade, cresci na empresa. Se não cresci mais foi justamente por entender que meu ciclo tinha acabado naquela empresa e queria um novo desafio. 

Já tive situações, como decidir empreender ou apostar em algumas empresas, eu me frustrei veementemente. Mas, sem dúvida, isso me deu bagagem para me fortalecer e me adaptar a várias situações. E ter ocupado posições pelo aprendizado nas mais diversas áreas, desde marketing, customer success, expansão internacional… Foram oportunidades que abracei sempre e me ajudaram a completar essa pessoa que quero ser e me tornar.

É legal quando trabalha com várias coisas, porque você descobre aquilo que gosta. Quando estava na faculdade, procurei fazer muito isso. Trabalhei na área de finanças, na área de contabilidade, depois fui para outras coisas. Fui vendo o que gostava, até chegar no marketing, que é o que faço hoje e vi que é isso que gosto de fazer.

Dentro do marketing mesmo, tem várias coisas que não gostaria de fazer. E tem outras coisas que gosto, porque é muito amplo. O bacana é se encontrar, nem que seja um segmento dentro de um segmento.

Se você pudesse dar cinco dicas práticas para melhorar a flexibilidade cognitiva, o que preciso fazer? Há algum checklist, um método ou algo para me inspirar?

Acho que até há métodos. Antecipo uma recomendação: um texto do Gabriel Costa, o Mineiro, que fala sobre hackear processos de aprendizagem. O artigo está no LinkedIn e no Medium.

Ele estrutura um passo a passo que ele segue quando quer aprender, e acho genial. Você consegue identificar a competência que quer desenvolver, como buscar formas de encontrar aquilo, seja de um mentor, vídeos ou estudos. 

Mas, eu trouxe, basicamente, minhas formas de ver isso, o que levo em consideração para aprender mais.

Uma das coisas importantes para mim é refletir sobre as discussões e conversas com amigos e pessoas que estão próximas. Tento analisar se estou convivendo num meio que as pessoas têm as mesmas opiniões, se sempre estou falando com as mesmas pessoas, porque caímos num risco de se viciar na maneira de pensar.

Até no meu Instagram, as pessoas que costumo seguir quando são influencers ou formadores de opiniões, tenho um hábito de, constantemente, trocar, dar unfollow e começar a seguir outras pessoas, justamente para não cair na pegadinha de que meu pensamento é apenas uma cópia de todos os outros. Isso, para mim, é muito importante. 

Agora que não tenho mais meus amigos no dia a dia, a forma como me relaciono com eles tem mudado de sair do apenas “como está sua vida na quarentena” e puxando assuntos específicos, para falar de política, educação, robótica, indicação de livros. Rever como a gente tem essas relações, para mim, é um grande forma de rever nosso processo de flexibilidade. Eu, particularmente, gosto muito de aprender com pessoas.

Um outro ponto é sobre consumo de conteúdos. Às vezes, pergunto para as pessoas quanto tempo faz que não leem um livro que não é da área delas. Temos essa tendência de ler sobre os best sellers da área. Mas quanto tempo faz que você não lê um livro de poesia, romance ou ficção científica? Isso também é importante para a gente se desenvolver e sair da mesmice.

Uma coisa que acontece, principalmente na nossa área de marketing, é que não temos nada novo sendo falado para as empresas. A última teoria mais inovadora dentro da administração foi falada em 1970. De lá para cá, nos últimos 50 anos, tudo sobre instalar negócios, growth, design thinking, exceto o que é mais técnico, só estamos repaginando e colocando nomes bonitos em coisas que são estudadas há muitos anos.

Olhe um pouquinho para outras áreas e como isso pode se conectar com sua área de negócios. Isso é importante.

O acaso favorece a mente conectada. É uma frase clichê. E justamente vem de explorar outras fontes de conhecimento que não são só a sua.

Uma coisa que é importante na flexibilidade cognitiva é dar chance ao humor. Trouxe esse ponto porque ficamos na busca pela produtividade, pela capacidade de aprendizado, leitura de coisas sérias. Mas podemos dar chance ao humor e conteúdos leves.

Às vezes, gostava de chegar em casa, não conseguia pensar e assistia a um capítulo da novela. Consuma um conteúdo leve, deixe seu cérebro relaxar um pouco, porque o seu cérebro precisa desacelerar no seu processo de aprendizagem e, segundo, podem surgir conexões inusitadas.

Não sou a pessoa que acompanha muitos canais no YouTube ou séries, mas, de vez em quando, gosto de pegar uma tarde e assistir a vários vídeos de alguém que gosto, algum canal de humor que me faz rir um pouco. Isso ajuda na descompressão da seriedade que temos e ajuda a fazer novas conexões com coisas muito mais leves.

E outro ponto é deixar de lado as crenças limitantes. Embora isso seja muito difícil, é um processo para começar a pensar mais conscientemente. A gente se atenta muito a falar que não é bom nisso. Uma coordenadora minha quase dava um pulo quando alguém falava que era de humanas e não sabia fazer conta. Ela era de humanas e falava que sabia fazer contas muito bem. 

Tente cortar de seu vocabulário o “não sou bom nisso”. Estou aprendendo ou melhorando nisso. Isso já dá uma visão e uma perspectiva diferente no seu processo de aprendizado. Se você não é bom com dados, não vai ser mesmo, porque está todo dia afirmando isso para você.

E, por último, um ponto extremamente importante. Costumamos falar muito sobre o que ler, as referências ou dicas, mas esquecemos que ter uma disciplina com a saúde é muito importante.

Com a saúde emocional, seja por meio de terapia, meditação ou só um momento para não fazer nada e descansar. E com a nossa saúde física também. Sono, comida, tipo de alimentação… Ninguém tem bom processo cognitivo quando vive só de comida gordurosa, bebendo álcool todo dia, usando drogas, não faz exercício físico e não dorme direito.

Vejo pessoas falando que dormem quatro horas por noite porque precisam ter mais tempo para trabalhar. Eu, particularmente, duvido muito de uma pessoa sendo produtiva dormindo quatro horas por noite. Pode haver exceções.

Ter disciplina com a saúde e cuidar da saúde é muito importante, porque você não consegue aprender nada se está sem condições de pensar.

São dicas excelentes. Apenas complementando rapidamente dois pontos, uma coisa legal que você falou é seguir pessoas de pensamentos diferentes ou até pensamentos opostos. Se não me fala a memória, o Alan, da Phidata, falou isso no episódio 2. Ele falou que seguia um Twitter de alguém com opinião totalmente contrária, que ele não concorda, mas segue para entender o que aquela pessoa pensa. Todo pensamento igual ao seu, em algum momento, prejudicará seu aprendizado, porque todos estarão falando as mesmas coisas. 

Outro ponto que achei bacana foi quando você falou de aprofundar conversas com amigos. Um dos meus melhores amigos não é muito tecnológico e a gente só se fala por e-mail. Mandamos e-mails gigantescos e são assuntos mega profundos. E é bacana porque escrever nos obriga a refletir e gera uma dinâmica de troca maior. 

Complementando seu complemento, a escrita tem várias funções na nossa vida. ma delas é a função terapêutica. 

Um exercício que faço constantemente, em momentos difíceis, costumo escrever sobre aquilo, porque, quando escrevo, consigo dissociar o que faz sentido daquele sentimento e o que é só um drama, o quanto estou me vitimizando e o quanto preciso sentir aquilo para aprender com a situação.

E quando quero entender melhor sobre um tema, sempre gostei de escrever. Quando estava me preparando para essa nossa entrevista, comecei a escrever um texto justamente sobre flexibilidade cognitiva, que é justamente o que permite organizar ideias.

A escrita tem uma função muito importante no processo de estruturação do que estamos sentindo e do que estamos pensando. Até pode ser uma dica extra de como melhorar a flexibilidade cognitiva.

E um último ponto do que você falou é sobre a novela. Vejo muita gente, principalmente no LinkedIn, falando que quem assiste BBB, novela ou televisão está perdendo tempo e não está sendo produtivo. E acho isso tão louco, porque se gosto de entretenimento e acompanho novelas, isso não quer dizer que seja melhor ou pior pessoa. Quer dizer que aquele entretenimento, para mim, é importante. 

Qual a diferença da novela para uma série, um livro ou um filme? Cada um aprende de um jeito. Não precisamos ficar julgando que o meu é melhor que o outro.

Só mais um adendo: isso vale para qualquer coisa, não apenas entretenimento. Estilo musical é muito importante também. Vejo muita gente nesse mesmo processo, criticando quem critica determinados tipos de música. Por quê? Música sempre vai conectar uma cultura.

Citando uma pensadora contemporânea, Anitta, lembro que estava assistindo a uma entrevista dela há um tempo com pessoas do MIT. Perguntaram para ela a respeito do funk, o que ela achava, se era menos cultural do que outros estilos musicais.

Ela fez um ponto muito importante e questionou: quantas pessoas hoje vocês acham que conseguem ter a mesma vista do Leblon ou de Ipanema para compor lindas poesias de bossa nova e samba como Vinícius e Tom Jobim faziam? O funk é representação do que acontece na favela e não é menos cultural por isso. Essas pessoas que estão lá não têm como contar do pôr do sol em Ipanema, porque elas não vêm o pôr do sol em Ipanema. 

Isso me marcou muito, porque, quando você fala de cultura, entretenimento e conhecimento, é muito particular de cada área. E não é porque você não está inserido naquele ecossistema que aquilo é menos cultural do que a sua própria realidade.

Abrir os olhos para esse diferente faz muito sentido para você ter outras referências.

É cultura também, só é diferente da sua. E ser diferente da sua não quer dizer que seja ruim ou bom. Obviamente, quando não estamos falamos de extremos. 

Indo para a parte final, que é mais de dicas. Tem algum livro que você indicaria?

Trouxe três, um que recém finalizei, outro que foi o turning point da minha vida e um que me marcou mesmo.

Recentemente, finalizei o Sapiens, do Yuval Harari. E me deu uma cutucada muito grande nos meus questionamentos sobre a humanidade de forma geral, para onde estamos caminhando. 

Livro Sapiens

Um livro que mudou a maneira como me comunico na vida, a minha forma de relacionamento com as pessoas foi o Comunicação Não Violenta, do Marshall Rosenberg. Ele é um psicólogo que fala sobre relacionamentos e comunicação de forma geral. 

Foi quando consegui perceber que estamos sempre se comunicando de uma maneira violenta. Comunicação violenta não é gritar, confrontar, “dar a louca” e ser agressivo. A comunicação violenta é, às vezes, não demonstrar as nossas necessidades na nossa fala e externalizar essas necessidades no outro. 

Isso me trouxe outra visão da forma de me comunicar. Quero ler de novo, inclusive, porque acho que terei novos insights.

Comunicação não violenta

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E um livro que foi assim por relaxar mesmo e foi uma surpresa muito grande foi um chamado A Menina da Montanha. É uma autobiografia, da Tara Westover. 

A família dela é de mórmons, e o pai dela proibia os filhos de ir para a escola. Ela só conseguiu ir para a escola pela primeira vez aos 17 anos. Hoje, ela é PhD. Cresceu na carreira mesmo tanto tempo sem estudar.

Para mim, é um claro exemplo de resiliência, flexibilidade cognitiva, de buscar correr atrás dos sonhos. É um livro emocionante em várias partes. Amei de paixão.

Livro A Menina da Montanha

Excelentes dicas. Comunicação não violenta e Sapiens estão na minha relação de livros que mudam a forma de encarar muitas coisas na vida. O Poder do Agora também fez isso comigo, foi um livro que mudou minha percepção. E o Sapiens é tapa na cara atrás de tapa na cara. E o que gosto mais é que ele comprova quase tudo com dados. 

E dica de filme ou série, há alguma?

Sou muito fã da série Chef’s Table. E eles fizeram uma na sequência que chama Street Food. Sou uma fã de comida, sou cozinheira amadora há duas décadas. E comidas são o que me motivam para quase tudo na vida. É aquela famosa frase: se você acha que pode me comprar com comida, pode muito sim. Inclusive, posso passar a lista de várias coisas que sou fã.

Chef’s Table e o Street Food são duas formas de conhecer outras culturas. E, para mim, nada mais representa tanto a cultura de um país, de um povo ou região tanto quanto a comida daquele lugar. 

Foi muito interessante fazer essas novas conexões. O Street Food é focado só em comidas de rua da Ásia, como Tailândia, Vietnã e Japão. E o Chef’s Table fala de chefs no mundo inteiro, inclusive sobre o Alex Atala.

São duas séries com fotografia bonita e cheias de informação sobre a cultura dos países. 

 

Chef’s Table é uma memória muito boa. Faz muito tempo que vi, e é genial. O que acho mais incrível é que trata de várias coisas dentro de um único episódio. Você vai aprender sobre empreendedorismo, sobre liderança, gestão, comida, cultura do país, a pessoa por trás do chef. Numa série, você consegue ter lições sobre questões pessoais e profissionais. O episódio do Alex Atala é muito bom. 

No primeiro episódio da primeira temporada, é com um chef italiano (Massimo Bottura), que vai ao museu se inspirar para os pratos dele. É isso que falamos de aprender a aprender. É surreal. 

Os sobre culinária peruana, tailandesa e mexicana são muito bons. O da Rússia é muito bom. Recomendo fortemente Chef’s Table.

E, para finalizar, alguma dica de meio de conteúdo que você consome?

Poderia fazer uma lista gigantesca, mas um que é recente e é de um casal de amigos é o perfil da Transformação Criativa no Instagram. Eles também têm um blog.

A Transcriativa foi uma expedição pelo interior do Brasil. A Nath e o Alex alugaram um motorhome, trouxeram algumas pessoas importantes nesse processo e foram atravessar o interior do Brasil. Passaram muito tempo no interior do Nordeste. E foi através de criativos e empreendedores criativos. 

Eles trazem essa pegada que o brogodó é a nova moeda de troca. E o borogodó é essa criatividade, buscar forma de fazer negócio. A ideia foi sair dos grandes centros e entender como as pessoas estão inovando e criando nesses mercados fora dos grandes centros, saindo da mesmice dos padrões de startups.

A Transcritiava traz muitos insights. É bem legal. Eles trabalham numa mini web série. Vale a pena acompanhar.

Para finalizar, é o momento jabá. Se você quiser falar mais sobre a B.done, os serviços e os sites… Lembrando que a B.done está no Clube de Descontos. 

A B.done foi um projeto inusitado que apareceu na minha vida há mais ou menos dois meses. Só para contextualizar, eu e minha sócia, Carine Morandi, trabalhamos juntas na RD. Moramos juntos depois de um tempo. Depois, ela foi fazer um ano sabático a redor do mundo, voltou para o Brasil, foi para São Paulo. A gente se reencontrou quando voltei para São Paulo.

Quando vim para a Austrália, ela continuou fazendo as coisas dela. E justo no momento que ela tinha decidido mudar a carreira dela, ela resolveu abrir a agenda dela para fazer algumas mentorias. Essas mentorias acabaram virando propostas de negócios e coincidiu que elas aconteceram no momento que a pandemia começou a acontecer.

A Carine conseguiu alguns projetos e precisava de uma ajuda no marketing para tocar alguns deles e me chamou para fazer parte. E chamou a Maju, que é nossa outra sócia, para cumprir outra parte dos processos.

A Cah já tinha essa ideia de empreender, a gente pirou na ideia e começou a entrar na vibe B.Done, que é, basicamente, business done

Procuramos entender o que temos a oferecer para o mercado e começamos a entender que temos dois backgrounds muito fortes na empresa. Um deles é das próprias agências de marketing. O outro é das estratégias de negócios. 

Portanto, entendemos que temos de um lado um público em processo de transformação digital, que são as empresas que esperavam a transformação digital bater na porta. Elas precisam estruturar seu marketing, sua forma de fazer negócios online. E do outro lado, há as agências de marketing. Todas nós já trabalhamos com agências. 

Hoje, basicamente, fazemos uma ponte entre os dois segmentos, ajudando as empresas a desenvolver seu modelo de estruturação de marketing, de equipes e processos. E quem operacionaliza isso são as agências.

Gostamos de dizer que conexões entre pessoas são os melhores negócios feitos pela gente. Realmente, a gente conecta os dois públicos e atende duas dores fortes, marketing para as empresas que querem estruturá-lo e vendas, que é uma dor dentro das agências.

Hoje, esse é nosso core business. Estamos no Instagram, em @b.done_br. Podem acessar nosso site também bdone.com.br. Lá, postamos algumas coisas do que a gente já fez. Aceitamos feedbacks, trocamos mensagens e ideias sobre transformação digital, marketing e vendas. Entrem em contato com a gente, será um prazer.

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